Conto de Flávio VM Costa

Nós chamávamos cada um de pacote. Cada pacote tinha um número. A gente encontrava o pacote. Seguia o pacote. Pegava o pacote e o levava para a Casa. Tratávamos da maneira correta o pacote para que a gente descobrisse aonde outros pacotes andavam. Quando pacote perdia sua utilidade, mandávamos para o setor de distribuição que fazia o pacote desaparecer.
Eu os preparava no setor de distribuição. Muitos pacotes serviram de adubo numa plantação de pimenta naquelas bandas de Sergipe. Era propriedade de um dos chefes. Pelo menos agora, eles vão servir ao país, esse chefe costumava dizer.
Usei o que eu aprendi o resto da minha vida toda neste primeiro serviço, inclusive com a outra farda, a menor. Nunca me deixaram usar a farda maior, disseram que meu serviço era especial e que eu aprendia rápido, mas nunca usaria a farda maior enquanto estivesse naquela missão. Nunca a usei. Nem antes nem depois. Ninguém poderia saber. É por isso que os nomes daqueles que serviram naquele grupo nunca vão aparecer em lugar algum. Nem o meu.
Nunca contei a ninguém o que estou contando agora ao senhor, Doutor Carlos.
Comecei no setor de distribuição. O produto final. Começávamos pelo fim. Era degastante, porém recompensador. Em um período de três meses, eu me lembro de ter carregado nove pacotes. Foram os dias mais intensos da minha vida. Demorávamos poucas horas no preparo final do pacote. Arrancávamos todos os dedos. E todos os dentes. E moíamos tudo junto com alguns pedaços das coxas e das bundas. E dávamos de comer aos porcos, aos cavalos e aos cachorros. O resto era triturado e misturado com uns fertilizantes e outros produtos químicos que um dos chefes entregava. Usaram como adubo não só naquela plantação de Sergipe.
Depois passei para o setor de tratamento. Todo mundo gostava dessa parte do trabalho. Todo mundo almejava chegar ao setor e continuar lá por todo o serviço. Trabalhar o pacote para que a gente descobrisse onde os outros estavam. Nisso consistia a tarefa. Eu sabia fazer direitinho. Os pacotes se abriam para mim como flores que desabrocham. O meu serviço era limpo e rápido.
Apesar de todo o talento demonstrado para o setor de tratamento, os chefes decidiram que eu deveria ir para o setor de vigilância e captura. Um passo anterior do processo. Um trabalho aborrecido, pois tinha muito de vigilância e pouco de captura. Ficar parado por dias vendo a movimentação de quem entrava e saía de um determinado casebre no Subúrbio Ferroviário. O aparelho, como diziam os do outro lado. A gente do nosso lado tinha que escrever relatórios, todos os dias quando voltávamos para a Casa. Era muito mais cansativo do que trabalhar horas e horas num pacote mais difícil de abrir. Trabalhar no pacote era revigorante; vigiar o pacote, exaustivo.
Cumpria minha missão e sabia que fazia o que era certo. Minhas ações e de meus companheiros impediram que muito sangue brasileiro fosse derramado. Protegemos nossa terra linda, fértil e altiva daqueles que estavam do outro lado. Sangue honesto. Era assim que um outro chefe dizia. Ele comandava o setor de tratamento. Vamos impedir que nossa terra linda, fértil e altiva seja conspurcada com ideologias alienígenas. Vamos impedir que a sacrossanta terra da Bahia seja adubada pela ideologia de Satã. Era muito religioso.
E depois de cada sessão de tratamento, o chefe do setor lia um dos salmos para o pacote da vez. Ele tinha uma voz grossa que ressoava por todo aquela sala pequena, com as paredes tomadas pelo mofo, e lá estávamos nós, cinco da gente, e o pacote num instrumento e outro pacote amarrado à parede em frente, testemuhando tudo o que acontecia. Nossa técnica era essa. A gente sempre colocava um para assistir. Vocês que estão do outro lado, atravessem, venham para a luz, dizia o chefe do setor de tratamento. Ainda há chance de arrependimento. Tocava uma Ave Maria na vitrola.
Quando terminávamos uma sessão com um pacote, a gente o levava para o setor de armazenagem. Colocávamos o que assistia no instrumento e a gente trazia um terceiro que estava na armazenagem para assistir amarrado à parede. Quando tínhamos três pacotes ao mesmo tempo funcionava assim nosso sistema de rodízio.
O setor de tratamento primava pela eficência. Um médico acompanhava todos nossos movimentos. Treinamos por meses com porcos e cavalos antes de começarmos a trabalhar com os pacotes. A gente só liberava os cachorros. Ninguém teria coragem. Sabíamos até aonde poderíamos ir porque não queríamos que nos confundissem com as outras equipes. Aquele povo se divertia com aquilo, cometiam trapalhadas e era preciso publicar jornais estórias tolas que somente geravam ansiedade à população. Trabalhávamos em silêncio.
Trabalhamos por amor, meu jovem, dizia-me o chefe do setor de tratamento. Todo pacote possuía seu prazo de validade, a depender da natureza do material. Todos se abriam, sem dúvida.
O chefe do setor de tratamento lia os salmos, recitava os pastos verdejantes, e dez mil cairão à tua esquerda, mas tu não serás atingido e, ao fim, esperava que cada pacote se arrependesse de seus pecados.
Quando cheguei a Salvador passava dos dezoito anos. Vim a pé do sertão. Me vi sozinho no mundo e não havia nada que eu pudesse fazer na minha terra e eu decidi que seria bom usar a farda, que seria alguém no mundo. Fui direto ao quartel lá na Mouraria e quem falou comigo foi justamente um tenente. Ele não me deixou entrar, mas me levou num lugar para comer.
O tenente me puxou pelo braço e perguntou o que é que eu queria fazer da minha vida e eu disse que queria servir, que tinha amor pela farda, que gostava da farda e queria ajudar. Você quer ajudar mesmo? Servir a seu país? Fará tudo o que for preciso? Ele me entregou um pouco de dinheiro depois que eu disse sim para todas as perguntas dele. E ele me levou para conhecer o chefe do setor de distribuição.
Amém, alguns pacotes diziam. Aleluia, seu filho da puta. Toda honra e toda glória ao Pai Eterno, seu escroto. Assim seja, seu torturador de merda. Depois da leitura dos salmos era proibido trabalhar com o pacote. Um dia, o amor de Deus entrará no coração de vocês e vocês irão se arrepender, dizia o chefe do setor de tratamento. No dia seguinte chegava o momento de enviar o pacote para o setor de distribuição.
Certa vez, três pacotes foram misturados à argamassa e ao cimento, após terem sido finalizados. Lembro que ajudei na construção da casa de praia do chefe do setor de distribuição. Foram três pacotes cujos pedaços foram emparedados. Agora as almas deles pertencem a mim e eles não vão sair daqui e vão guardar a minha casa, dizia-me o chefe do setor de distribuição. Só eu o ajudei na construção e só eu sabia que três pacotes foram usados para essa destinação. Ele confiava em mim e nossa tarefa no setor de distribuição consistia em desaparecer com os pacotes finalizados, não importava como, desde que nós evitássemos deixar rastros.
Cheiro de pacote finalizado. Este era o cheiro do chefe do setor de distribuição.