Flávio VM Costa

Fez bem-feito quem fez, repete João, com um meio-sorriso ansioso, enquanto espera o irmão José abrir a garrafa de tubaína. Ué, Papai disse que a gente tem que obedecer, diz o irmão José.
Não foi não, diz João. Não foi assim.
Claro que foi, esqueceu?, diz o irmão José, que serve a tubaína, enquanto alisa a gravata enlaçada no pescoço de João. Acha engraçado. E puxa a gravata, com violência. Só de brincadeira.
A garrafa de tubaína se espatifa no chão.
Um pouco mais cedo, as gentes espiavam o homem-tiranossauro, da mesma maneira que se admira um presépio. O corpo preto balançava suavemente e se esquivava das amêndoas que, ao caírem, grudavam na mancha abaixo dos pés. A respiração conjunta das gentes impulsionava-o para lá e para cá, para lá e para cá, e João percebia as unhas passando bem devagar do amarelo para o roxo.
A gente tem que se defender, dizia Tio Quintélio o dia todo. E os fregueses do bar concordavam antes de beber cerveja.
O corpo interrompeu o balanço e, em queda, as amêndoas passaram a alvejá-lo. João viu os cortes nas narinas, os avermelhados vazios entre os dentes que restaram e o anular esquerdo apontando torto para o céu sem nuvens de janeiro.
Como é que se consegue fazer aquilo com um dedo?
Ontem, um sábado, a rua estava deserta antes mesmo do anoitecer e o bar, fechado. João ficou sem tomar tubaína. Flagrou Tio Quintélio, com a ajuda do irmão José, esconder atrás dos vasos de espadas de Ogum, que guardavam a frente de casa, três bastões de madeira com pregos nas pontas. Flagrou Tio Quintélio de conversa baixa com dois desconhecidos homens parrudos, abaixo da amendoeira.
As coisas ficaram esquisitas nas duas últimas semanas, após Tio Quintélio encontrar a janela de casa arrombada, ao voltar de uma breve temporada na ilha. Levaram o aparelho de micro-ondas, o notebook, a cafeteira italiana (só a gente tem! só a gente tinha!), o liquidificador novo, e duas calcinhas da mulher (os últimos itens omitidos nos relatos aos policiais e vizinhos).
A casa de Tio Quintélio fica de frente à amendoeira. As amêndoas são boas para brincar de polícia-e-ladrão.
As veias da testa de Tio Quintélio vibravam enquanto ele apertava a mão da mulher e cochichava no ouvido dela, como se quisesse arrancá-lo:
“Só eu posso cheirar. Só eu.”
A mulher sorriu. Sempre sorria assim.
Grunhidos, que nasceram gargalhadas, se espalhavam pelas gentes diante da amendoeira. Fotografavam e filmavam com celulares.
Os gritos acordaram João de madrugada. João desconfiou que ele mesmo é quem tinha gritado. Depois chegou um outro grito e ele se encolheu na cama.
Dona Lúcia ficou sem a caixa de bijuterias, dias depois do acontecido na casa de Tio Quintélio, e sem Kuki, um cocker spaniel inglês, preto e ligeiro. Ao acordar em uma madrugada de chuva forte e de trovão, Dona Lúcia sentiu a falta de Kuki a lhe esquentar os pés, e assustada correu nua por toda a casa até encontrá-lo, com o pescoço quebrado sobre o tapete da porta da frente que avisava “ESTA É UMA CASA GUARDADA PELO SENHOR”.
A rua desemboca em um largo. Todo final de tarde Dona Lúcia passeava Kuki e dizia aos meninos que brincavam de bola e de picula:
“Olhe só, gasto mais dinheiro com ração, pet shop e veterinário do que seus pais com vocês todos juntos.”
Diante do corpo, Dona Lúcia disse:
“Aqui se faz e aqui se paga.”
E se benzia repetidamente. Os braços enrugados tremelicavam. Os óculos de cor azul escorregavam pelo nariz. Ela os endireitava. Os óculos tornavam a escorregar pelo nariz.
João encontrou o homem pela primeira vez há um mês. Achou graça no jeito todo estropiado; o andar de pés virados para dentro, os bracinhos de tiranossauro, o sorriso esperançoso. Usava uma longa gravata azul mais encardida do que a camisa branca e calça social verde, exibindo todos os tons da sujeira e do abandono.
Primeiro pegam ele, depois me pegam, pensa Dudu, sentado à mesa da cozinha, onde se espalham dezenas de fotos. Depois pegam todo mundo.
“Repare que o pé tá certinho. Repare, benzinho. O descarado se fazia de aleijado,”disse a mulher de Tio Quintélio. De novo ele lhe cochichou no ouvido. Ela sorriu e mostrou a ponta da língua larga e avermelhada.
Dos pés pretos pendiam unhas pontudas. Em casa, João arremedou aquele andar e caiu de cara no chão. Riu. Tá vendo? É difícil se fazer de aleijado, disse o irmão José.
A mulher de Tio Quintélio anda só de calcinha em casa. Calcinhas pequenas que somem entre as nádegas empinadas. Calcinhas de menina. O irmão José gosta de cheirá-las. As nádegas e as calcinhas.
João olhou para as orelhas de abano do irmão José. Idênticas no formato e bem maiores do que as suas. De mãos dadas se afastaram do pessoal com um recuo. Todo mundo suava. Eram sete horas e o calor já sufocava o domingo.
E que cheiro esquisito tem o sangue.
Com um xale amarelo a esconder a camisola roxa, Dona Gumercinda resistiu a ceder ao alívio. Meu conjunto de taças…, disse para Dona Lúcia. A única relíquia do casamento, um raro presente do taxista Melchior, morto por um enfarte há um ano, quando tentara cuspir um pedaço de bife de alcatra entalado na garganta.
João se lembrava do taxista Melchior retirado pela janela da sala. Depositaram o corpo numa caixa de metal. A boca aberta. Chovia muito naquele dia. A água escapava da boca do taxista e João pensou que Melchior iria morrer uma segunda vez, afogado pelas gotas grossas da chuva.
“Vinte anos sem filhos, mas de muita felicidade”, dizia Dona Gumercinda, habituada a esconder a tristeza nas camadas sobrepostas de gordura. Passava as tardes a encher as mãos dos guris da rua de quebra-queixos, pés-de-moleque e geladinhos. E pedia um agrado em troca.
Tudo muito rápido para ninguém ver.
Sabia-se que escondia o conjunto de taças de cristal sob o fundo falso do guarda-roupa.
“Coitado, mas se não foi…”
“Se não foi?”, disse Tio Quintélio.
“Como é que a gente vai saber se…”
“Se, Dona Gumercinda? Como assim se? Se o quê? A senhora está com peninha? Se o vagabundo tivesse entrado também na casa da senhora… ôxe, a senhora estaria muito satisfeita, isso sim, eu sei bem, a senhora pensa que a gente não sabe… não sei quem foi, mas fez bem-feito quem fez, só assim essa gente aprende, veja só, se não foi… você já viu, rapaz?”
“Eu não disse nada, vizinho, eu só queria dizer…”
“A gente sabe, minha filha, eu sei bem. Fica na sua, não vá bater boca com esse…”, disse Dona Lúcia. Ela apertou a mão da amiga e a levou para casa.
Quando acordou de madrugada João tateou pelo irmão José no quarto escuro.
Tio Quintélio ficou ainda mais satisfeito com a retirada das duas senhoras. Agora só falta o pessoal da televisão. O resto estava do lado de Tio Quintélio; uma aprovação silenciosa. A mulher de Tio Quintélio ligou duas vezes, há mais de meia hora, para a televisão e nada. As frases estavam decoradas. Ela entrou em casa, pegou o celular e tentou mais uma vez. A gente tem que se defender, não sei, senhor, não sei quem fez, mas a gente tem que se defender, vamos esperar por quem… Da janela de casa, a mulher de Tio Quintélio acenou. Nada. A gente tem que se defender…
O homem-tiranossauro lembrava o pai de João. Os bracinhos do pai também eram curtos e bem pretos. Bem pretos mesmo.
Cuide do guri, disse o pai ao irmão José.
De sua laje, com um pijama listrado, Dudu observava, de cima em diagonal, o corpo pendurado por uma gravata azul num dos galhos da amendoeira. Pequenas crateras avermelhadas se espalhavam pelo crânio careca. Meio escondido, espionava os vizinhos com desprezo, mas também não conseguia deixar de olhar para aquilo.
Como é que não se espatifa no chão?
Há dias Dudu se escondia em casa. Sempre dizia que estava cansado daquilo tudo, daquela rua de casas corcundas, de ser enganado, de viver no engano, de se deixar enganar, de ser roubado, daquela gente, de ser alvo de pequenas ofensas e de risadas intermináveis, de mal esconder o que mais desejava. Mas nunca conseguia deixar o bairro.
Levaram dinheiro e os cartões de Dudu. Eram tantos meninos. Tinha que disputá-los com Dona Gumercinda. E ela sempre tinha algo mais a oferecer.
Cada um dá o que pode, o que gosta, diz Dona Gumercinda.
“E pensar que fiz uma lasanha para o infeliz…, diz Dona Lúcia.
A mulher de Tio Quintélio gosta de tomar banho com o irmão José.
João acenou para Dudu. Da laje ele viu que a parte superior direita do crânio afundou igual a uma bola esvaziada, e recuou horrorizado sem responder. João voltou-se para o corpo; somente agora ele mesmo tinha percebido, como se antes estivesse cego para aquele detalhe: a placa de papelão “LADRÃO AQUI NÃO SE CRIA”. Cravaram-na com um prego na altura do peito do homem-tiranossauro. O sorriso continuava torto.
“Vagabundo que gosta das coisas dos outros acaba assim”, disse Tio Quintélio e tocou de leve o ombro de João.
“Assim? Pendurado numa árvore?”
“Se lenha. Tanto faz se numa árvore, no meio do mato, no fundo do mar, na cadeia, não interessa, uma hora acaba sobrando. É assim que essa gente acaba. Aprenda a gostar do que é seu. Ladrão que…”
“Ele era ladrão?”
“Ladrão mesmo. Ora se era. Veja só, José!”
O irmão José concordou com a cabeça. Tio Quintélio apertou as mãos dele e depois, com mais força, as de João. Tremeram as orelhas de ambos.
Essa gente é capaz de tudo, disse Dona Gumercinda para Dona Lúcia, enquanto requentava na cozinha o café para a amiga. Nossa gente, respondeu Dona Lúcia. E é bom você começar a ter cuidado, acrescentou. Dona Gumercinda nada respondeu, encostou-se à janela e viu os dois irmãos e sentiu aquela vontade novamente.
Da última vez que encontrou o homem-tiranossauro vivo, comendo lasanha com as mãos sob o abrigo da amendoeira, João atreveu-se a puxar conversa.
“Por que o senhor anda assim torto?”
Tinha olhos marrons avermelhados e respondia piscando. Depois, enforcado na amendoeira, parecia que os olhos ele não tinha mais.
“Nasci defeituoso.”
Suspirava a cada mordida na lasanha.
“E dói?”
“Dói muito, dói sempre.”
Os gritos cessaram pouco antes de amanhecer. Vem ver uma coisa, disse o irmão José um pouco depois.
As viaturas apareceram. Perto do meio-dia. Pouco antes do rabecão. Nenhuma equipe de tevê. Os policiais ouviram as respostas evasivas. Os policiais não mostraram muito interesse, apenas ordenaram que as gentes fossem embora. Com pressa, dois homens vestidos de camiseta branca passaram o corpo do homem-tiranossauro para uma suja caixa de metal, da mesma forma que fizeram com o taxista Melchior. João largou a mão do irmão José e se encostou ao portão de casa, meio confuso. Tio Quintélio chamou o irmão José para ajudá-lo a abrir o bar.
Façam tudo que Tio Quintélio mandar, disse o pai.
Fez bem-feito quem fez.
Quando o homem disse que doía muito? Naquela vez da conversa ou ontem de madrugada, quando, deitado na cama, João ouvia os gritos da rua?
Dói muito. Dói sempre.
Para a casa de quem iria mais tarde? Dudu ou Gumercinda? Gumercinda. Dudu. Gumercinda…
Senta-se na calçada sem chegar a uma conclusão. Quando ergue a cabeça a rua está deserta, o chão, quente. Levanta-se espanando a poeira do short verde. Anda um pouquinho e descobre, cercada pelas amêndoas manchadas de sangue, a gravata azul jogada sobre uma das grossas raízes da árvore. Bem bonita, apesar de tudo. Uns trinta metros adiante o irmão José aparece à frente do bar de Tio Quintélio. Segura uma garrafa de tubaína.
Sorridente, João enlaça a gravata em volta do pescoço e corre para junto do irmão José.