Essa música nunca me caiu tão bem quanto nessa fase da minha vida. Sempre vivi muito presa a tabus e conceitos que foram passados a mim pela minha família e sociedade durante toda a minha vida. Desde muito novinha tive a ideia de que precisava controlar o volume dos meus cachos, ainda mais eles sendo muito cheios e compridos. Minhas tias faziam tranças enormes e amarravam com elástico e isso para mim é um trauma. Por conta disso, ganhei trauma de pentear o cabelo, já que os elásticos machucavam minha cabeça e partiam meus fios. A solução encontrada na época, por falta de opções no mercado de cosmética – que vendia apenas relaxamentos, desfrisantes e tudo mais que fosse química para diminuir o volume das cacheadas e crespas – foi alisar.

Com dez anos fiz meu primeiro relaxamento e, claro, me sentia maravilhosa com os cabelos enormes – porém vazios e estragados. Por mais cuidado que tenhamos com um cabelo “alisado”, ele jamais será tão saudável quanto um cabelo 100% natural e sem química.

O tempo passou e a qualidade da química evoluiu também. Chegou no mercado a escova progressiva e, assim como as meninas que tinham o cabelo do mesmo jeito que o meu, eu também queria aquilo. A ideia agora era ter o cabelo com aparência de liso natural, processo que levou um bom dinheiro de minha mãe. Com todos esses processos químicos acabei perdendo muito cabelo, deixando ele muito ralo. Mesmo com meus fios nascendo de novo, algo havia mudado em mim. Eu já não mais parecia ser eu mesma, sabe?

Cabelo reflete muito do nosso eu, na mesma proporção que tentava domar meu cabelo, internamente eu me domava também, me prendia. Nessa época eu não usava maquiagem ou brincos grandes, batons sempre foram os mais básicos e clarinhos possíveis, roupas sempre as mais discretas, nada que me destacasse.

Passei a me achar linda de cabelo curto – graças a todas as mudanças necessárias por causa das químicas – bem “domadinho” e liso, super liso.

Nessas tentativas de ficar lisa tentei algumas vezes deixar meu cabelo cacheado. Cortei bem curto em uma época que eu estava tentando sair do HENNE EM GEL, aqueles produtos que você precisa passar ferro no cabelo – sim ferro de fogão.  Eu tinha que fugir de qualquer gota d’água que pudesse cair em meus cabelos, pois se molhasse subia um cheiro de cabelo queimado muito intenso.  Nessa época meu cabelo também era lindo, parecia um veludo preto, brilhante e liso. Só que esse produto era a base de chumbo e isso no couro em algum momento da vida iria fazer mal para minha saúde. Perdia pelo menos um dia inteiro para arrumar o meu cabelo nesse processo. Era péssimo e ir à praia estava fora de cogitação, só se eu estivesse disposta a ficar com o cabelo esfarelado após a praia e perder mais um dia inteiro para fazer o processo novamente.

Tentando sair do Henne, cortei o cabelo bem curtinho, dei a louca e pedi pra cortar para deixar ele todo virgem. Assim que a cabelereira acabou de cortar e eu olhei, chorei de soluçar, coloquei todo mundo no salão para se preocupar comigo. Sim, entrei em choque neste dia. Desesperada, pensei até em usar peruca ou colocar mega hair até que ele estivesse grande novamente.

No final, fiquei com meu cabelo curto mesmo, me sentindo horrorosa. Mas cabelo cresce rápido e logo essa fase passou. Porém, isso foi em 2010. Nessa época ainda não existiam muitos produtos para cabelo cacheado e eu acabei voltando a alisar. Descobri novos métodos de alisamento, muito bons e também muito caros, e voltei a ficar alisada.

Porém, cabelo liso e bonito requer muita grana. Já estava na fase de alisar todo mês, já que meu cabelo cresce muito rápido e é muito cacheado. Sempre que aparecia uma pequena parte da raiz, eu já enlouquecia. “Não posso viver com meu cabelo assim!”, pensava. Minha cabelereira, coitada, ficava louca e sempre dizia: “Aninha, seu cabelo é tão lindo cacheado! Deve ter um cacho lindo, por que você não testa para ver como fica?”. E eu respondia: “Deus me livre deixar meu cabelo assim! Alise logo, por favor!”.  Em alguns momentos a química não queria pegar nem com a prancha e eu pedia para que ela continuasse tentando, até ficar com o couro cabeludo machucado – em alguns casos até com pus, por causa das feridas. Eu chorava de dor nessas horas.

Gastava em média de 400 reais por mês com meu cabelo, criando uma dívida atrás da outra no salão. Mal acabava de pagar um procedimento e já queria fazer outro, para que o cabelo ficasse sempre liso e bonito.

Até que em agosto de 2015 resolvi que ia tentar mais uma vez. Minha última progressiva foi em julho de 2015, ia no salão apenas para dar escova para conseguir suportar a diferença de textura. Passou o natal e ano novo, e em janeiro de 2016 casei na igreja após sete anos de relacionamento. Então pensei: “Por que não corto e caso com ele curtinho?”. Fiquei com medo, e recuei. Mas em março criei coragem, já não aguentava mais meu cabelo daquele jeito. A diferença de textura já estava gritante e insuportável, afetando meu auto estima.

Então dia 05/03/2016 fui no salão de Ed Descabelado, que tanto me estimulou e incentivou junto com algumas amigas que já estavam cacheadas. Cortei bem curtinho, mas bem curtinho mesmo.

Fui para o salão junto com uma amiga que segurou minha mão e se emocionou comigo. Vocês não têm ideia da importância que um simples cortar de cabelo tem na vida de uma mulher. Eu não chorei e nem tive medo por que isso já estava muito bem decidido em minha vida, dentro de mim, era o que eu queria. Mesmo que depois eu me sentisse horrível, eu queria me livrar das pontas lisas. Após o corte me senti muito estranha, e até feia para falar a verdade. Porém, algo dentro de mim mudou naquele exato momento, como se uma nova pessoa estivesse nascendo naquele instante. Era muito estranho porque não estava me achando bonita, mas estava super feliz. Não contei que ia cortar meu cabelo ao meu esposo e quando cheguei para mostrar a ele, ele tomou um baita susto. A primeira coisa que me perguntou foi se eu estava maluca e por que eu tinha feito aquilo no cabelo. Eu respondi porque sim, porque eu quis, porque assim eu estou mais feliz e melhor.

Eis que surge uma nova mulher, por que o cabelo para mim não estava bom. Então comprei milhares de tiaras e presilhas para enfeitar meus cachos, brincos novos e grandes que nunca consegui usar, passei a usar todas as maquiagens que tinha e que nunca tinha coragem de colocar. Gente, hoje eu uso batom vermelho e roxo e a cor que eu quiser. Sim, eu consigo e isso despertou uma auto estima em mim em um nível tão alto, que até quando eu estou desgrenhada me acho linda. É mole?!

As mudanças foram acontecendo à medida que os cachos iam aparecendo. Mudei meu jeito de vestir, o que era simples agora passou a ser moderno, descolado e divertido. Dedico mais tempo para cuidar de mim, não só dos cabelos, que hoje realmente me demandam tempo para que fiquem sempre lindos, mas também cuido hoje de mim por inteiro. Tenho mais amor por mim mesma. Até dos meus pés eu tô cuidando, menina!

Então é isso, a questão aqui não é ser cacheada, é saber que você pode ser feliz do jeito que você é sem precisar tentar se encaixar em padrões de beleza da sociedade.  Sem querer sempre se parecer com alguém, se pareça com você mesma, se olhe no espelho e esteja feliz com o que vê, tenha coragem e ousadia para mudar e tentar fazer algo que tanto quer. Se quer ser cacheada por que acha lindo: então seja! Ao menos tente! Não vou dizer que é fácil, por que não é, mas é incrível passar pelo processo e ver a mudança que isso traz em você de dentro para fora e de fora para dentro.

Hoje sou mais alegre, mais radiante e tenho o prazer de contagiar as pessoas sabe? Quero que todas as mulheres possam sentir essa explosão de mudanças maravilhosas que eu senti dentro de mim. Me sinto livre, sinto que hoje eu sou quem eu realmente deveria ser.

Hoje tenho dois anos de big chop e não tenho nenhuma pressa de que meu cabelo cresça. Deixo ele livre e bem à vontade, estou curtindo cada momento do meu cabelo, sem pressa, deixando ele finalmente ser quem ele quer ser, junto comigo.