“Quantas memórias ficcionais construímos e guardamos? Quantas hão de permanecer? Para quem as guardamos? Perguntas sem respostas. São como afirmações interrogativas para aumentar as dúvidas. Precisamos nos encher de dúvidas para criar em praias desertas marejadas por lembranças.”

As frases interrogativas e exclamativas acima foram ditas pelo encenador espanhol Moncho Rodriguez, que dirige o espetáculo solo Retratos Imorais, que traz o premiado ator baiano e minhoto de coração João Guisande, que há quatro anos circula seus projetos e espetáculos entre Brasil e Portugal.

A montagem inspirada em dois contos do escritor cearense Ronaldo Correia de Brito – Mãe em Fuligem de Candeeiro e Mãe numa Ilha deserta – fica em cartaz de 11 a 26 de agosto no Teatro Sesi Rio Vermelho, sábados e domingos, num horário alternativo, às 16 horas – não é um espetáculo infantil. Em setembro, o espetáculo complementa sua temporada com mais duas sessões, 9 e 16, domingo, às 20 horas.

Os dois monólogos de Ronaldo Correia de Brito trazem as personagens Edmundo e Marivaldo, que compartilham em cena uma solidão conhecida por muitos, moradores de ilhas desertas e paisagens de aglomerados. Guisande conta que as personagens são totalmente opostas: “dois homens desconhecidos, diferentes, cada um com a sua história”.

Os dois monólogos se unem num só espetáculo pelo fio invisível da poética nos avessos de duas almas, propositadamente abandonadas, no universo do absurdo da solidão humana. “Aos poucos, concluímos que existe algo de absurdo que os aproxima a solidão, a vontade de viver e de inventarem suas vidas”, pontua o intérprete.

Edmundo, personagem da primeira história, aceitou o “emprego” de faroleiro numa ilha depois de uma desilusão amorosa. Revive o drama da afetividade, da masculinidade, do ser ou não aceito. Edmundo tem por obrigação acender um farol que deve guiar navegantes desconhecidos. Põe luz nas trevas, tenta clarear o escuro de si mesmo e dos outros. São retratos de contradições, opostos inexplicados, resíduos de marés, tempestades e anoiteceres.

Marivaldo, personagem da segunda história, é feminino. Tem a alma delicada tocada pelas memórias absurdas da mãe. Procura o seu encontro na pintura de retratos em fuligem de candeeiro. “Ambos são invenções, podem ser pressentidos ou imaginados. Ao elaborar seus retratos lhes roubamos a identidade ou os deixamos sem rostos. Reinventamos suas almas. Partilhamos solidões preenchidas por vazios e imagens reinventadas em intervalos poéticos”, explica Guisande.

Edmundo e Marivaldo fazem parte de duas histórias inventadas para dois homens que nunca existiram. Inexistentes, eles permanecem no imaginário de homens que sempre existiram. “Que eles possam ser reveladores. Nesse processo de revelação, a plateia também se revela. Fixados os retratos, eles se reproduzem em outras memórias e imaginários como se houvesse espaço para co-autores”, suscita Rodriguez.

Os que assistem espreitam ou, simplesmente, se deixam seduzir pelas imagens reveladas. “Partilhamos solidões preenchidas por vazios e imagens reinventadas em intervalos poéticos. Devaneios. Buracos invisíveis da nossa imaginação. Nesses lugares obscuros estamos sozinhos, pelo avesso, no abandono do abandono”, realça Guisande.

Um território abstrato que se estende no corpo físico do ator, nos seus músculos, na sua pele, no trilhão dos seus poros. O solo propõe um cenário de sombras e luz, vazio, limitado na fronteira do imaginário de cada espectador cujos horizontes são indicados nos gestos do ator/personagem, amplificados pela sensação marítima de uma ilha absolutamente deserta.

Serviço

O quê: Retratos Imorais – solo com João Guisande

Quando: 11 a 26 de agosto – sábados e domingos, às 16h

Onde: Teatro Sesi Rio Vermelho – Rua Borges dos Reis, 09 – Rio Vermelho (Tel.:3616-7064)

Ingresso: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia) – Bilheteria do Teatro e pelo Sympla (www.sympla.com.br