Qualquer profissional deve sonhar junto com o seu cliente ou paciente. Aliás, deve sonhar sofrer, ser feliz, infeliz, viver e ser solidário com o que o outro vive. É isso que diferencia um bom profissional do PROFISSIONAL. Mas, como viver uma gravidez sendo um homem? Digo isso porque faço muitos quartos de bebês. Muitos. Demorei a entender o rosa pra menina e azul pra menino. Demorei não! Não entendo até hoje… Só entendi que é algo orgânico, menina realmente é DOIDA por rosa e menino gosta muito de azul. E de verde também. E de amarelo. Só não gosta de rosa. Ou não deveria gostar…

Você já atendeu uma grávida? Aliás, você já montou um quarto de bebê com uma mãe de primeira viagem? Bom… Eu já, inúmeras vezes. Foi assim que RIVOTRIL tornou-se uma constante na minha vida. Tomo rivotril com coca- cola e brigadeiro de colher para potencializar os efeitos. Por que nestas horas sou o irmão, o melhor amigo, o conselheiro e o ombro amigo menos Arquiteto. Sou Arquiteto também, um pouquinho, mas sou. Mas só um bocadinho.

Devo admitir a ansiedade pro bebê nascer. Quero ver logo a carinha, pois acompanhei a gravidez desde o início. Só faço o projeto do quarto de bebê se me contratarem com, no máximo, quatro meses de gravidez, depois disso é rivotril, prozac, reza da braba e noites insones pensando se a decoração vai ficar pronta. E sinceramente? Tou velhote já pra ficar perdendo noites em claro.

Ouço, ouço, ouço, até meus ouvidos ficarem roucos. Depois sugiro. Ai a mainha (baiano fala mainha) decide e eu oriento. Enxoval, acessórios e toda espécie de parafernália, projetar um quarto de bebê é tão difícil quanto projetar uma usina nuclear, sei de tudo. De tudo um pouco. Na teoria, é claro. Não pego bebê nunca, morro de medo desses anjinhos, nunca me imaginei trocando fralda, mas sei exatamente como deve ser um trocador confortável pra o bebê e pras mainhas, isso de tanto as clientes me dizerem como deve ser.

Estávamos fazendo a casa de um casal de clientes quando ela soube que estava grávida. Que felicidade! Fiquei feliz. Me afeiçoo com facilidade a nossos clientes, pois como entrar na vida deles sem os amar?

Projetamos o quarto com tanto amor, decoramos tudo apaixonadamente, cada detalhe e nos tornamos muito amigos. Mas muito amigos mesmo. Tipo confidente, sabe?. Uma semana antes do parto, ela me liga pedindo para eu ir montar os quadros e ajuda-la a colocar os objetos no lugar. Fui. Rimos, brincamos, fizemos planos de minha visita ao bebê. Era um momento mágico para ela, e agradecia a Deus estar desfrutando isso com alguém que se tornou querida para mim.

O bebê nasceu. Liguei para o esposo dela perguntando dela e do bebê. Ela estava bem, o bebê nem tanto. Não é nada, disse. Tudo vai dar certo. O senti apreensivo no telefone, mas não quis falar nem perguntar o que por vezes não deve ser falado nem perguntado. Calei-me. Tempos depois recebi a notícia que o bebê amado, desejado e querido partiu. Um silêncio se fez em nosso escritório quando soubemos. Pedi pra desmarcar as reuniões da tarde, pois fiquei muito abalado. Não queria chorar na frente dos meninos. Cheguei em casa e desabei. Lembrei do quarto, da tarde de montagem e dos planos daquela mãe querida pro seu filho querido. Não existia mais quarto. Só o vão, a construção, pois arquitetura se faz com vida. A morte torna a arquitetura só paredes e objetos.

Após a notícia triste, houve um hiato de meses sem diálogo com os clientes. Não tínhamos coragem de ligar, íamos falar o que? Sinto muito, pêsames para uma mãe que perde seu bebê? Silêncio, que se ouve mais que palavras. Após os meses calados, a cliente liga e marca uma reunião no nosso escritório para retomar as obras de sua residência. O momento que nos reencontramos não houve palavras, só lágrimas, delas e minhas (como as que rolam no meu rosto agora). Ali vi que minha profissão de nada vale. A vida vale muito mais. Não era mais arquiteto, era um amigo abraçado à sua amiga, dividindo uma dor que não se explica.

O quarto dele até hoje está montado. Não é só mais obra, paredes, quadros, objetos, cortina e berço, também é arquitetura. Pois saudades, afeto, certeza do reencontro e esperança que estamos de passagem nesta vida também é vida.