A primeira vez que vi um Baobá foi em um livro de ciências, devia ter por volta de 10 anos de idade. Se antes não sabia o que era, o que gostaria de ser e principalmente meu lugar no mundo, descobri! Queria ser um baobá! Vi aquela árvore enorme, sem folhas, sólida e imórrivel. Tem gente e coisas que achamos que é imórrivel. Os que e o que amamos por exemplo. Mãe morre? Fisicamente TALVEZ sim. Dentro da gente NUNCA. Como pode alguém morrer se nosso coração se formou dentro dessa pessoa? Se nosso coração esta amálgamado a ela? Mãe então pra todos nós é imórrivel! Meu sonho é plantar um Baobá. Sei que não vou ver todo seu esplendor. Mas acho,penso, que é bom irmos e deixarmos. Deixar um Baobá não é pra qualquer um. Então fica combinado entre nós, que até os cinqüenta anos – coloquei como meta viver cem anos- irei plantar um Baobá. Por favor, me cobrem.

Gosto de plantas desde que sou criança. Lembro que quando minha mãe recebia rosas de meu pai, eu as recebia como conseguinte. Primeiro as tocava- aprendi assim, que o que amamos deve ser tocado com delicadeza- e depois colocava meu narizinho nelas. Fechava os olhos e abria a boca e a garganta.  Não as cheirava, as sorvia! Tentava sentir o gosto de seu perfume. As primeiras, conseguia sentir o perfume em minha garganta de criança, depois acostumava com o perfume, e a novidade deixava de ser novidade, e a vida é feita do novo e da novidade. Aprendi a não tocá-las e a não forçá-las por conta de seus espinhos. Mas, mesmo com os espinhos, conseguia segura-las e vez ou outra forçava algum dedinho pra vê-lo sangrar e poder ver um pouco de mim nelas.

Gosto de entrar na mata sozinho- consigo suportar minha própria companhia- e ficar sufocado de vida. Acho que você já teve a sensação de entrar na mata e não conseguir respirar por alguns instantes né? É como mergulhar no mar, descer lá no fundo e emergir. Expliquei? Só sentindo então…

Tenho medo de árvores, medo não, PAVOR. Nunca derrubo uma nem penso em fazer isso. Quero uma vida de sorte. E o que é uma vida de sorte? Sorte é o olhar se entrelaçar com alguém, sorte é dormir, sonhar sonhos sonhados e acordar. Sorte é fazer aquele exame médico e dar positivo ou negativo, sorte é dobrar a esquina e ver aquele homem ou mulher lindos e ele ou ela achar que teve sorte no dia por ter nos visto, sorte é perder e achar ou perder e não achar. Sorte é chover e não molhar ou chover e molhar. Sorte é beijar e você achar que aquele beijo é e deve ser pra todo sempre. Mas o que é sorte mesmo?

Tenho um jardim mixuruquinha em minha casa. Quatro palmeiras magrinhas, dessas que não comem feijão e vivem em dieta, um pé de jabuticaba, que nunca consigo provar de seus frutos pois meus amigos passarinhos não deixam, duas plantas que não sei o nome e um anão de jardim que não sei pra que serve, mas ta lá e me faz bem saber que ele existe. No meu jardim não tem nem espaço pra eu ter medo de cobra e outros bichos de tão pequeno que ele é. E como é viver sem nenhum, nem um tiquinho de medo? Como se consegue? Não ter medo de nada, nadica de nada?

Sempre molho meu jardim mesmo quando “chove cacau”. Aqui na Bahia quando chove muito forte tá “chovendo cacau”. Poderia chover chocolate 70%, mas chove só o cacau mesmo. Molho mesmo quando o cacau inunda tudo. Devemos cultivar mesmo quando o que cultivamos não pareça querer e precisar. O segredo do cultivo tá aí: se fazer mesmo quando não se quer ou precisa.

Não gosto de plantinhas em vasos. Parece estas crianças de condomínio.  Chatas, birrentas, pouco afeitas a compartilhar, egoístas e só gostam dos iguais. Qualquer formiguinha da vida rói. E eu não sei o que será dessas plantas de vasos quando caírem ou forem jogadas na floresta mundo. Um mundo é um Playground gigante né? Quem sabe brincar de verdade vive intensamente. Quem não sabe, as folhas e flores (será que as tem?) secam rapidinho.

No meu jardim tem um lago. Quatro peixes. Grandinhos até. Deixo ele sempre meio sujo. Às vezes o que acham que é sujeira está nos salvando. Ninguém entende. Só a gente. E é até bom que não entendam, se descobrirem o segredo da sujeira, talvez a sujeira gere cobiça. E o pior que pode acontecer a qualquer um é cobiçarem o nosso. Tem gente capaz de tudo pelo que cobiça, seja sujeira, um doce, um amor e o que menos vale: dinheiro.

Já plantei quatro árvores na vida. Vieram só uns galhinhos pequenininhos. Dava dó em vê-las. Ninguém, nem eu, achava que seriam- dariam – árvores. E são e deram. Grandes. Estão atraindo moradores já. Um casal de bem-te-vis. É bom olhar e saber que às vezes o que parece frágil, cresce e vira abrigo pra outros. Ser abrigo é o que podemos dar de melhor para os outros, né? Tem gente que se abriga em nossos corações, ouvidos, olhos e até nos bolsos. É bom deixá-los viverem lá desde que não sejam espaçosos e sempre limpem o abrigo. Se encherem o saco da gente é simples- não tão às vezes- é só tirar a cobertura do abrigo e deixar chover cacau.