Aos queridinhos (as) do site Bahia Social,

Começamos agora o nosso caso de amor. Estaremos juntos sempre que eu tiver alguma história pra contar e sei que vocês vão ficar atentos, pois eu serei ‘a outra’, o amorzinho da rua. Avise logo ao companheiro ou companheira que eu não sou ciumenta nem possessiva. Portanto, iremos dividir esta relação sem briga. Espero agradar a todos. E até descontrair os seus lábios após a leitura do nosso artigo e antes de um beijo carinhoso. Helo.

A doce saudade do beijo da cabocla

Helo Sampaio

Sabe aquela saudade doce, que deixa o coração todo dengoso, buscando aconchego, e traz aquele ar de felicidade ao rosto? Pois é assim que eu fico em todo dia 5 de julho, o dia da ‘volta da cabocla’. Ah! O lindinho quer saber por que é que eu fico toda melosa? Vou contar.

Eu estudava na Faculdade de Comunicação da UFBa, lutando com muita dificuldade junto com Paulo, meu irmão caçula, pois a nossa família ficava em Ibicaraí, e tínhamos muitas etapas a vencer, principalmente a procura por algum estágio remunerado. Falava com todo mundo até que um dia, Fernando Rocha, meu querido professor, me dá a boa notícia: “Helo, consegui o seu estágio em A Tarde. Pode começar amanhã”. Não dei um pulo, um grito e um beijo no professor porque sou uma moça finerésima. Mas quase dou um troço de tanta alegria.

No outro dia, lá estava eu no início da tarde, na redação de A Tarde, para cumprir a pauta. Já tinha estagiado uns meses da Tribuna da Bahia, sob a coordenação de Zédejesusbarreto (como a gente o chamava), portanto não era uma ‘foquinha’ inexperiente (chamamos de ‘foca’ o jornalista iniciante). Mas trabalhar numa nova redação, e do maior jornal da Bahia (na época), é como iniciar um novo caso. E eu procurei ter muita competência com o trabalho. Saí, busquei todas as informações para a primeira matéria, e voltei para a redação já no final da tarde para começar a escrever o texto.

De repente, percebi um movimento estranho na redação, com os editores e repórteres correndo para as janelas que davam para a Praça Castro Alves, e falando: ‘é a volta da cabocla; ela tá retornando agora’. Tabaroa de Ibicaraí, eu ainda não conhecia direito a tradição, não sabia que a cabocla ia visitar (para mim, ia ‘namorar’) o caboclo no Campo Grande, no dia 2 de julho – dia da Independência da Bahia – e retornava com ele pra Lapinha no dia 5. Danadinha essa cabocla.

Quando atinei, as janelas estavam todas ocupadas com o pessoal para apreciar o desfile. Não contei conversa: subi numa cadeira, passei os braços pelos ombros de dois veteranos que eu ainda nem conhecia, e comecei a perguntar pela festa, como é que era, se o caboclo ficava com ela ou não ficava, se… Os coroas se viraram pra olhar a ‘foquinha desassuntada’ que os abraçava. Sorriram e… gamaram por ‘euzinha’. A partir desse dia, além de Fernando Rocha, que era o chefe de redação, eu contava com o apoio e carinho de Octacílio Fonseca e Silva Filho, os jornalistas que eu abracei na minha ânsia de ver a cabocla.

E passei a fazer parte dos planos deles. Na hora que eu acabava a minha matéria, ia ajudar Octacílio, que era editor de Internacional, a corrigir as notícias que vinham pelo telex, ou ia xeretar Silva Filho, que era editor Local; depois passei a atazanar Genésio Ramos e Sóstrates Gentil, Milton Chagas, enfim, eu ‘metia o bedelho’ em todas as editorias, em todo trabalho da redação. E ganhei também o respeito de dr. Jorge Calmon, que via e aprovava as minhas intromissões pois entendia que era interesse pelo jornalismo. E era mesmo. Voce já viu que eu era uma ‘foquinha’ muito atrevida, não é, meu benzinho?

Ah! E quando eles iam ‘tomar uma’ depois do trabalho, no Cacique ou redondeza, eu não perguntava nada, apenas saía, acompanhando eles que, a princípio, me olharam com estranheza (nenhuma mulher jornalista havia se intrometido entre eles). Mas logo se acostumaram e até passaram a me esperar quando eu – que cobria Polícia na época – me atrasava com algum incêndio ou acidente, quando contava com todo apoio do grande Walmir Palma, o famoso ‘Seu Porreta’. Ai, que saudade!

Íamos a todos os bares e botecos, com mais frequência ao Ocê Qui Sabe, de Jaime, na rua Rui Barbosa; o Bar de Rui, no Instituto dos Arquitetos da Ladeira da Montanha; no Varandá ou no Juarez do Mercado do Ouro. Nós corríamos tudo que era lugar depois do trabalho, à noite ou no sábado à tarde. Corríamos os botecos, tanto fazia se de Itapuã, do Largo 2 de Julho ou da Ribeira. Mas, às sextas-feiras à noite, o compromisso era na casa de Octacílio para a deliciosa feijoada preparada por Carolina. A volta a casa era saborosa, de barriga cheia.

Pode crer, neguinho, o tempo passou mas deixou muita lembrança e uma saudade aliviada por aquela sensação do ‘sim, o tempo passou mas eu fiz tudo o que eu quis e pude fazer’. Principalmente conquistei muitos amigos e procurei sempre fazer o Bem. Tem coisa melhor, não.

O engraçado é que outro dia tive um ‘pepino’ para resolver no Bradesco em Itapuã e, conversa aqui, conversa ali, foram chamar uma pessoa para resolver. Aí chegou um moço bonito, atencioso. Olhei para a cara dele e o coração bateu diferente. “É Paulinho, Paulinho de Octacílio Fonseca?”, perguntei. Ele me olhou admirado e logo me reconheceu: “É Helo?”. Nos abraçamos com emoção. Tinha não sei quantos anos sem vê-lo, sem saber da família. Foi um reencontro maravilhoso e agora não o perco de vista. Mas não é para descascar pepino, não, viu, lindinho da mente poluída? É para matar saudade mesmo e dar alegria a Octa, que deve estar sorrindo ‘lá de cima’.

E pra arrematar o dia, corri para a minha loura querida e amadinha Elíbia Portela para preparar uma delícia digna de receber uns amigos de Sumpaulo que chegaram para uns dias na Bahia. E Elíbia nos presenteou com esta delícia que ela chama de Beijo da Cabocla. Meus amiguinhos paulistanos já tinham recebido muitos beijinhos das caboclinhas baianas e retornaram de lábios doces. Sejam sempre bem vindos menininhos. A Bahia está sempre de braços e portas abertas para os que chegam com o coração aberto.

Agora vamos deixar de ‘lero’ e rumar para a cozinha fazer a receita ensinada por Elíbia para ver se conseguimos um beijo de um caboclinho gostoso.

Beijo de Cabocla

Ingredientes: Para a massa:

250 g de açúcar,

2 ovos batidos ligeiramente,

2 colheres de sopa de pão ralado fino,

200 g de amendoim torrado e moído,

200 ml de leite de coco.

Modo de preparar:

– Levar todos os ingredientes ao fogo, misturando sempre até desprender do fundo da panela;

– Despejar em um prato untado e reservar para esfriar;

– Com as mãos untadas com manteiga, modelar bolas.

Para o glacê:

1/2 xícara (chá) de açúcar,

1 colher (sopa) de água quente,

1 colher (chá) de essência da sua preferência,

Modo de Preparar:

– Misturar muito bem todos os ingredientes até dar liga.

– Banhar as bolinhas no glacê, e salpicar pé de moleque triturado ou paçoca esfarelada. Deixar secar e arrumar em forminhas de papel. (Elíbia avisa que, nos dias atuais, o açúcar da massa, pode ser substituído por uma lata de leite condensado).

E agora é relaxar, saborear com um (ou uma) caboclinho (a) trocando beijinhos carinhosos. Tem coisa melhor não, fio! Xero no cangote.