O indicativo de mulheres vítimas de violência doméstica e abuso no Brasil cresce a cada ano. Uma pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança, divulgada recentemente, aponta que uma em cada três mulheres sofreram algum tipo de violência no último ano, geralmente causadas por maridos e namorados. A cada hora, 503 mulheres sofrem agressões físicas. Do ponto de vista comportamental, esses dados suscitam questionamentos sobre a natureza do trauma, e a dificuldade das vítimas em romper uniões desse tipo.

Lendas e mitos de mulheres vítimas de violência povoam o imaginário de diversos povos. Os Inuítes -uma nação indígena esquimó da América do Norte- reverenciam uma deusa que traz esse arquétipo. Sedna é a deusa do mar, uma mulher bela que foi enfeitiçada por um príncipe que na verdade era uma gaivota, com a promessa de fartura e regalias. Enganada e desamparada, ela passou a viver no ninho da imundície e da miséria.

Na fuga de Sedna, mais uma tragédia. Visitada por seu pai, ela pede ajuda e é levada em um barco, mas seus planos são frustrados pelo agressor que invoca uma tempestade. Jogada ao mar em meio ao desespero, Sedna se agarra à borda do barco e tem seus dedos cortados em cada tentativa de voltar à superfície. Por fim, chega o momento da transformação. Os pedaços dos dedos cortados de Sedna se transformam em animais marinhos, e assim ela passa a alimentar seu povo, se libertando do papel de vítima.

Sedna representa em algum ponto a realidade das mulheres que, passado um jogo inicial de sedução que as envolve em um relacionamento, acabam presas em uma armadilha difícil de sair. A escolha de continuar presa ao trauma não é racional. Diante de situações traumáticas, o processamento das informações sobre a nossa realidade passa por transformações, conforme explica o cientista e estudioso do trauma, Peter Levine, no livro ‘O Despertar do Tigre’. Segundo o autor, o organismo sofre um tipo de desorganização e nos falta capacidade de compreensão as situações do cotidiano.

Algumas reflexões sobre a tentativa de fuga de Sedna nos levam a compreender essa recorrente dificuldade das vítimas em se libertarem de seus agressores. Estar preso ao papel de vítima faz parte de um círculo vicioso. Do ponto de vista terapêutico, é necessário que haja disposição para desafiar as crenças limitantes às quais nos prendemos quando envoltos em situações de extrema tensão. Buscar auxílio terapêutico, de amigos e de parentes faz parte do caminho da cura, mas é a própria consciência da transformação que completa esse processo. Não existe pílula mágica.

Respeitar o mundo interno de sentimentos, sensações e ensejos mais profundos é um dos ensinamentos do mito de Sedna. Em seu desfecho, há um convite à transformação, lembrando que sempre é possível completar a jornada que nos faz recuperar a saúde do corpo e da alma, rumo ao nosso propósito de vida.

(Texto escrito por Daniella Sinotti – Terapeuta Transpessoal Sistêmica e Jornalista.)