Há poucas semanas, uma jovem divulgou um experimento de desventura realizado em um conhecido site de paquera. Em seu perfil, ela inseriu uma foto com o filho e reforçou seu papel de mãe. O resultado prático do teste foi desastroso do ponto de vista afetivo, uma enxurrada de grosserias, misoginia e falta de aceitação, critérios que regem esse mercado virtual de afetos. O desalento dessa mulher me fez pensar nas queixas que ouço diariamente e no drama da escolha no amor, temas que remetem ao mito do julgamento de Páris, prenúncio da guerra de Troia.
O julgamento de Páris é um mito grego que conta a história de um príncipe a quem Zeus ordenou que fosse o juiz para um concurso no qual seria escolhida a mais bela deusa, a quem seria dada uma maçã dourada. As concorrentes foram Hera, Afrodite e Atena. Elas trazem elementos dos arquétipos femininos da expansão nos relacionamentos que se manifestam quando examinamos os detalhes do comportamento que cada mulher estabelece diante de situações do cotidiano. Afrodite representa a beleza e sedução, Atena é a mulher independente e moderna e Hera rege o casamento e a moralidade social.
O príncipe Páris inicialmente tentou se esquivar da ordem de Zeus, sugerindo que a maçã fosse dividida em três partes, o que lhe foi negado. Ele seguiu então o critério da emoção e do desejo, e não da necessidade, escolhendo a deusa Afrodite. Ela havia oferecido a Páris, como prêmio, o cálice do amor e a mulher mortal mais bonita como esposa, no caso, Helena, que já era casada com o general grego Menelau. A partir disso seria iniciada a guerra de Troia. O critério da escolha de Páris está vivo no inconsciente masculino. Deusas ligadas à maternidade não entraram nessa disputa.
A escolha de Páris, a realidade do mercado de afeto dos sites de paquera e as consequências das escolhas amorosas tendo como base a superficialidade nos deixam algumas reflexões. A escolha amorosa nem sempre leva em conta nossos anseios mais profundos. A essência da natureza humana nessa busca é quase sempre motivada pelo desejo pueril, quando a emoção fala mais que alto que a razão.
Por fim, deixo uma citação do psicanalista alemão Bert Hellinger, criador da psicoterapia sistêmica, sobre a simetria oculta do amor. “O amor segue a ordem oculta da Grande Alma. A razão superior e o significado profundo de nossas necessidades físicas instintivas superam e controlam a racionalidade e a vontade”.

 


Texto escrito por Daniella Sinotti, Terapeuta Transpessoal Sistêmica e jornalista.